O motivo dos silêncios
Todo azulê, requer seu rejuntim
Criolo, que manda avisa que estamos todos com fome. De pão e de amor.
Não faça nada por mim
Nada de nada, vamos ir e voltar em histórias e músicas francesas. Piaf era um pássaro, as vezes corvo, é verdade, mas não por vontade própria, já que por vontade própria não tomamos dez injeções de morfina por dia. Não amanhecemos em Ipanema como canta Dan mas amanhecemos em cadeiras de cinema. Que moram na sala. A nossa volta palavas grandes, imensas, paredes cinzas e aquele sonho estranho onde Caio Fernando Abreu veste uma camisa jeans e repete, repete, repete como é difícil, como é difícil, como é mesmo que a gente aguenta?Pergunto sobre céu e ele ri, gargalha. O navio afunda, acordo, bebo o que sobrou do vinho, como pão, Santa Ceia, acendo incenso, vela, rezo, a vela derrete, toda, que rápido, volto a dormir. Sem medo. Nem temor. Já disse e repito, não faça assim.
Quantos minutos vai demorar para que alguém arrombe esta porta e invada esta sala? Estou sem calcinhas, não posso sentar. Não que este fato tenha alguma remota ligação com o que acabo de fazer. Só preciso pensar em alguma outra coisa que não seja este homem debaixo da mesa, pressionando o ventre com as duas mãos já completamente encharcadas de sangue preto.
Até este momento eu não tinha idéia da facilidade que é levantar o braço, encolher o dedo indicador para dentro, de maneira que a pequena alavanca seja forçada e escutar o estampido de um tiro. Dois. Três. Depois da terceira sequencia de movimentos, o braço cansa e o dedo dói, mesmo com uma arma pequena, levinha, feminina, calibre vinte e dois.
Difícil mesmo é decidir. Mas acabo de saber, nisso, o ódio dá um jeito, calando a razão com uma coragem descabida, só possível a quem não possui mais o pudor de ser humano. Quando esta conjunção está pronta dentro do peito, o resto é simples. Rápido. Sete-oito. O passo de ballet em que antes mesmo da ponta do dedo encostar no chão, vinda do rodopio, já se está em outro. Pois quando a coragem se esvai como nuvem, você já matou alguém. Ou deixou muito claro que estava muito disposto a matar. Dependendo do caso, a primeira opção é sempre preferível.
Trecho de Sylvia não sabe dançar, que foi escrito enquanto a casca do ovo se quebrava para que o mundo pudesse nascer.
Lua de mel
Um casal foi pra Paris viver a lua de mel e levou os bonequinhos de cima do bolo, que na minha terra sabe-se lá porque chama “bugiu”. O moço é da banda Hidrocor. A moça ama cinema. Ai virou clipe.
Sei que você não gosta da pinta escura, em formato de pingo que tem ao lado esquerdo do lábio superior. Sei que você abraça as pernas quando precisa chorar. Sei que é sonâmbula e fala em espanhol durante os sonhos. Sei que prefere os dias nublados, as noites frescas e as amêndoas torradas com pele. Sei que você ama o cheiro de limão e que seus cabelos brilham mais quando os lava antes de dormir. Sei que detesta pisar no chão molhado, de meia, que tem menos medo e mais amor pela Senhorita Virgínia. Sei que você desenha cereja em todos os lugares possíveis, seja na cobertura do bolo, na árvore ou no lodo do galinheiro. Sei que tem medo das aranhas que moram entre as lenhas, e mais medo ainda de colocá-las no fogão para que morram queimadas, sem querer, apenas porque estavam distraídas. Sei que você é simpática, mais por costume do que por vontade. Sei que sua letra fica ilegível quando escrita com caneta preta e que você vê nuvens em forma de abacaxi quando está perto de chover. Sei que você prefere os botões vermelhos e que tem uma memória roubada de gente velha, cheia de versos, palavras, frases e molduras, que não cabem em uma moça de dezoito, mas já quase dezenove anos. Sei que você tem medo de libélulas, que não sobrevive sem um lento café com leite pela manhã, e que, se um dia tiver um filho, vai chamá-lo Antônio Maria. Sei que você cozinha pela fascínio infantil pela mágica, uma coisa mais a outra dá em uma terceira. Que é uma delícia. Sei que você prefere os vestidos, as sandálias, e acha graça em quem usa blush e açafrão em todas as ocasiões. Sei que você chora com discrição quando precisa matar galinhas, embora tenha um certo prazer secreto em fazer isto. Sei que você finge que seus dias tem trilha sonora, que escreve cartas com receitas proibidas, e que jamais que amanhecer no cais é uma das formas de felicidade. Sei que você sabe quem eu sou e, hoje a noite, vai enfeitar seu colo com um lírio, para que eu saiba que posso chegar perto.
Trecho do “Papel Manteiga para embrulhar segredos” escrito durante o outono de 2006, em uma minúscula mesa dentro de um lugar que não existe mais.




