Podemos fugir. Podemos correr duas vezes mais rápido apenas para ficar no mesmo lugar. Podemos nos camuflar, esquecer os brilhos d’alma, os sonhos de infância, as promessas feitas debaixo de estrelas, a paisagem da janela, o chão de terra, a vista do rio. Mas quando a borra de café se aconchega no fundo da xícara sussura o destino. E sou obrigada a voltar a querer o que na verdade sempre quis.
Alegria, Alegria
Quem inventou é discreto. Alegria não vem de explosão ou gritos. Vem de felicidade. Do grego phelis, para ser bem exato. Desde sempre ela mora em corações, lembranças, caixas de música, tim-tim e imagens congeladas em papel ou retina. Atende também por euforia, júblio, empolgação, vem cá meu nego que a vida é agora. E riso. Gargalhadas também. E lágrimas. Porque é frequente usar lágrima como condutora de um contentamento muito grande. Sabia? Mais ou menos como fazem João, Bebel, Arrelia e aquela vó pequenina que limpa com Coca-Cola as bordas dos porta-retratos. No mais, pouco importa se estás alegrinho de bebes doces ou amargos. Se teve gol. Se o beijo foi bom. Se as palmas foram altas. Se teve fogos de artifício em forma de cascata na tu´alma. Ou se deu certo, é tudo sim, as borboletas descobriram teu estômago, aquele olho finalmente viu ou a sua vida está com som, fúria e a trilha sonora dos teus sonhos. Porque quando nossos setenta por cento atingem os tais cem graus necessários para ebulir a alegria, tanto faz. A gente quer é viver.
Texto originalmente publicado na revista Simples?
Simplicidade nas coisas
A água não pode ferver. Sempre esqueço desta regra. Deixo no fogo alto. Que aprecio ebulições e transbordamentos e tempestades minúsculas. As noites parecem dias e este par de olhos castanhos que me segue as vezes nubla. Ai a gente queima alecrim. E fala de balanços com vista para o rio, das janelas azuis que estão descascando e começo do fim do mundo.
E se fosse verdade?
Eu não gosto de padre, eu não gosto de frade, eu não digo amém
Isso quem disse foi o poeta mas pra ti, minto que fui eu. E repito, repito, digo de novo, que não gosto, não quero, não baixo os olhos dos teus olhos. Tenho preguiça da fragilidade e, no frio, prefiro minha cama na varanda. Tem mais estrela.
Desavergonhadamente azul
É de manhã quando legitimo minha vontade de ser apenas eu mesma no momento em que tu desenhas círculos imaginários na minha pele. Te sorrio, me encantas. E juntos, colocamos fim na eternidade.
Você me dá sorte
Meu amor, desencaminho, desaprendo, desentendo e alargo meus desejos. Porque ando nestas de te fazer sorrir. Dos perigos lembro menos, do passado, te conto o que foi bom. Pra que tanto saber? Se hoje estás aqui, é quase primavera, aprendi a pisar macio e como diria meu vô João Bigode, tudo que é bom, é meu.
Deus existe. Mas é distraído.
E além de existir e ser distraído ainda se dá ao direito de caminhar nas nuvens, o que sabemos, causa danos irreversíveis. Como na questão dos que escorregam. Ele vê, mas pouco ou nada faz porque desconfia e em seguida acredita que trocar as pernas, as idéias e os caminhos é apenas um passo mais doido de um balé estranho, do qual ele pode até achar feio, mas só isso. Afinal, o livre arbítrio foi oferecido e de bom grado aceito pelos primeiros.
Pode não parecer, mas Deus gosta mesmo é de escutar as orações. Principalmente dos que batem palmas. Acha-os interessantes, tão desengonçados e maiores que a própria casca a ponto de precisar romper batendo uma extremidade contra outra, de tanto que tem dentro. Não se engane, Deus usa o olhar amoroso com parcimônia e desconfiança. Acha bonito mesmo é a espada que desemabainha rápido, num puxão de afiadas estrelas semi-nuas. Diz pouco, fala menos ainda. Os que ao acaso o escutam abrem logo igrejas, toldos coloridos sob sóis e chuvas, mal sabendo que aquilo foi só sua voz em falsete cantarolando alguma música sem nexo. Deus não gosta de fazer sentido, sabe? Por isso o ornitorrinco e a rã. Quando descobriram o avião, ele riu de escorrer lágrimas. Nunca foi preciso ter asas para encontrar o céu. Quem vive as ilusões sem retornos e acredita muito nelas, pode nem imaginar, mas ele cospe em cima. Detesta gente sem conexão alguma com o irreal. Manda sol quando alguém muito sangra e chuva para estancar tremores. Porque é preciso que o coração, único orgão vesgo e de vontade própria caiba em nós. Deus sobe no ônibus e encosta o corpo nas mulheres. Mesmo as feias. Melhor que fazer de novo, ele pensa bebendo o vinho que o filho ensinou a multiplicar. Hoje, quando conversamos me garantiu que as coisas vão dar certo. Já sei que o melhor é desacreditar. É que além de tudo, neste inverno já quase primavera, Deus está usando esporas no sapato. De doido assim, é melhor desconfiar.
Mande meu dicionário
Zimbábue, não sei que dia de setembro de 2001
Encontrei umas pedras que se parecem com sorrisos, veja você, acredite você. O vento me fez lembrar daquelas tardes antigas e sinto gosto de zinco no meu suor. Nada demais, portanto. Tenho alimentado a esperança, dou água para os unicórnios e minto só quando falam comigo. Que pra eu mesma, só a verdade. Ai, que chatice. Voltei a nadar, mas só durante a noite. Que não gosto das algas me lambendo as pernas. Vestido branco & chinelo. E, se você quiser mesmo, a gente pode morrer de rir. Um beijo, dois beijos.
Inflamável
” Ventava aquele vento contratado por reis para avisar das tempestade. Minha pele estava arrepiada de um jeito desconhecido e o mar, verde no exato tom das cobras. Menos confiável que de costume, certamente trazendo garrafas de náufragos e afogando pescadores jovens. Inavegável. Bem como eu ainda gosto. “
Duas pessoas são muitas coisas. Um livro não sobre amor. Na primavera.
