E além de existir e ser distraído ainda se dá ao direito de caminhar nas nuvens, o que sabemos, causa danos irreversíveis. Como na questão dos que escorregam. Ele vê, mas pouco ou nada faz porque desconfia e em seguida acredita que trocar as pernas, as idéias e os caminhos é apenas um passo mais doido de um balé estranho, do qual ele pode até achar feio, mas só isso. Afinal, o livre arbítrio foi oferecido e de bom grado aceito pelos primeiros.
Pode não parecer, mas Deus gosta mesmo é de escutar as orações. Principalmente dos que batem palmas. Acha-os interessantes, tão desengonçados e maiores que a própria casca a ponto de precisar romper batendo uma extremidade contra outra, de tanto que tem dentro. Não se engane, Deus usa o olhar amoroso com parcimônia e desconfiança. Acha bonito mesmo é a espada que desemabainha rápido, num puxão de afiadas estrelas semi-nuas. Diz pouco, fala menos ainda. Os que ao acaso o escutam abrem logo igrejas, toldos coloridos sob sóis e chuvas, mal sabendo que aquilo foi só sua voz em falsete cantarolando alguma música sem nexo. Deus não gosta de fazer sentido, sabe? Por isso o ornitorrinco e a rã. Quando descobriram o avião, ele riu de escorrer lágrimas. Nunca foi preciso ter asas para encontrar o céu. Quem vive as ilusões sem retornos e acredita muito nelas, pode nem imaginar, mas ele cospe em cima. Detesta gente sem conexão alguma com o irreal. Manda sol quando alguém muito sangra e chuva para estancar tremores. Porque é preciso que o coração, único orgão vesgo e de vontade própria caiba em nós. Deus sobe no ônibus e encosta o corpo nas mulheres. Mesmo as feias. Melhor que fazer de novo, ele pensa bebendo o vinho que o filho ensinou a multiplicar. Hoje, quando conversamos me garantiu que as coisas vão dar certo. Já sei que o melhor é desacreditar. É que além de tudo, neste inverno já quase primavera, Deus está usando esporas no sapato. De doido assim, é melhor desconfiar.